Por que comprar um carro zero km no Brasil é tão difícil?

O sonho do carro zero quilômetro segue vivo no imaginário do brasileiro, mas a realidade do mercado automotivo nacional transformou essa conquista em um verdadeiro desafio financeiro. Entre impostos elevados, juros estratosféricos e uma cadeia produtiva cara, adquirir um veículo novo no Brasil exige planejamento criterioso e, muitas vezes, sacrifícios significativos no orçamento familiar.

David Melo

2/14/20263 min read

A mordida tributária que encarece o sonho

O primeiro obstáculo está na carga tributária. Um carro zero km no Brasil carrega consigo uma verdadeira maratona de impostos: IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), PIS e Cofins (CBS reforma tributária em transição) incidem sobre o valor do veículo desde a fabricação até a revenda. Na prática, os tributos podem representar entre 30% e 40% do preço final ao consumidor.

Para ilustrar: um carro popular de R$ 80 mil tem aproximadamente R$ 28 mil em impostos embutidos. Essa é a diferença fundamental entre o mercado brasileiro e países desenvolvidos, onde a tributação sobre veículos tende a ser substancialmente menor.

Financiamento: o vilão invisível

Poucos brasileiros conseguem comprar um carro à vista. Segundo dados do setor, cerca de 70% das vendas de veículos novos no país são financiadas. E é aqui que mora outro problema crítico: as taxas de juros praticadas no Brasil estão entre as mais altas do mundo.

Enquanto em países como Estados Unidos ou Alemanha as taxas de financiamento automotivo giram em torno de 3% a 5% ao ano, no Brasil não é raro encontrar financiamentos com juros anuais superiores a 20%, mesmo em condições consideradas "boas" pelo mercado local. O resultado é devastador: um carro de R$ 80 mil pode custar R$ 120 mil ou mais ao final de um financiamento de 60 meses.

O custo Brasil na cadeia produtiva

A indústria automotiva brasileira enfrenta custos operacionais elevados que impactam diretamente o preço final. Energia elétrica cara, logística ineficiente, burocracia excessiva e mão de obra com encargos trabalhistas pesados encarecem a produção. Além disso, muitas peças e componentes ainda precisam ser importados, sofrendo a incidência de câmbio desfavorável e impostos de importação.

Essa combinação de fatores faz com que um mesmo modelo fabricado no Brasil custe significativamente mais do que em outros mercados da América Latina, como Argentina ou México.

A realidade do poder de compra

Talvez o aspecto mais cruel dessa equação seja a relação entre preço dos veículos e renda média do brasileiro. Enquanto em países desenvolvidos um trabalhador médio consegue comprar um carro popular com o equivalente a 8 ou 10 meses de salário, no Brasil essa conta pode facilmente ultrapassar 40 meses de trabalho.

Um estudo recente mostrou que o brasileiro precisa trabalhar, em média, três vezes mais tempo do que um americano para adquirir um veículo equivalente. Esse descompasso entre renda e preços torna o carro zero km um artigo de luxo para a maior parte da população.

Alternativas e o mercado de seminovos

Diante desse cenário desafiador, muitos brasileiros têm migrado para o mercado de seminovos, onde é possível encontrar veículos com poucos anos de uso por preços mais acessíveis. Contudo, essa mudança de comportamento também aqueceu esse segmento, elevando os preços dos usados e criando distorções no mercado.

A indústria automotiva, por sua vez, tem buscado alternativas como consórcios, planos de assinatura e programas de fidelidade para tornar o zero km mais acessível. Ainda assim, essas soluções não resolvem o problema estrutural dos preços elevados.

Perspectivas futuras

A discussão sobre reforma tributária no Brasil traz alguma esperança de redução da carga sobre veículos, mas mudanças significativas dependem de vontade política e reformas profundas no sistema fiscal brasileiro. Enquanto isso, a combinação de impostos altos, juros estratosféricos e baixo poder aquisitivo continuará tornando a compra de um carro zero km uma conquista difícil para a maioria dos brasileiros.

O carro próprio segue sendo símbolo de ascensão social e independência, mas o caminho para conquistá-lo exige cada vez mais planejamento financeiro, disciplina e, frequentemente, concessões importantes no orçamento doméstico. A pergunta que fica é: até quando o brasileiro precisará enfrentar tantos obstáculos para realizar esse sonho?